Nunca antes tinha dado atenção a ler de verdade Mário Vargas Llosa. Nada mais clichê do que estar morando na sua cidade natal: Arequipa, e tentar passar o tempo debruçado sobre sua obra. Retomei a leitura de a cidade e os cachorros que tinha começado em Aracaju e tão logo refleti sobre o título me dei conta de quão profunda relação ele submete seu povo à sua escrita. E isso em várias perspectivas das quais me interessam muito duas.
Não há como fugir da percepção primeira de que sou um cachorro, e estou entre eles literalmente aqui em Arequipa. A forma bruta como a divisão entre as classes se apresentam me lança de frente a dor constantemente. O dinheiro, ironicamente chamado Novo Sol, não amanhece a esperança de igualdade às pessoas que aqui se submetem sem vergonha a submeter-se. Sabem que são facilmente tangíveis e sujeitar-se é apenas continuidade da importância de saber desde cedo duas coisas.
As leis no Peru não se escondem na casa dos que abarcam posses. Elas apenas coexistem ali, como casas reais. Segunda, é de que o lema do Peruano lastimavelmente é: Asi es!
Como cachorros que ladram em grandes bandos sobre as ruas dessa cidade encantadoramente contraditória. E nesse ponto não falo de metáforas. São incontáveis os números de cachorros vagando sem norte pelas ruas como em procissão. A qualquer lado que se vá eles estão lá velando sua presença. E por isso atribui inicialmente a obra em questão a esse fato curioso até descobri que os cachorros na rua nada tinham a ver com os cachorros em questão no livro.
Segundo sinopse da Livraria Cultura, o enredo se desenvolve no Colégio Militar Leoncio Prado, em Lima, onde um violento código de conduta permeava o cotidiano dos cadetes - experiência vivida pelo próprio autor, enviado para lá ainda menino pelo pai autoritário. Vindos de todos os pontos do Peru, a maioria de origem humilde, com seus próprios problemas familiares e inseguranças, os jovens internos retratados neste romance são obrigados a sobreviver em meio a um ambiente brutal e hostil, onde a justiça quase nunca prevalece e os superiores, apesar de rígidos com a disciplina, mal sabem o que ocorre nos alojamentos. Longe da vista dos oficiais, os alunos se embebedam, jogam cartas, brigam entre si. Os mais velhos humilham os novatos - tratando-os por cachorros - e criam um círculo vicioso de dominação e crueldade. É em meio a essa pressão que alguns rapazes irão se reunir e formar um grupo coeso, o Círculo, como única forma de rechaçar as ameaças dos veteranos. Mas nem o Círculo estará livre da violência, e seus membros acabarão se tornando tão implacáveis quanto os demais. Seus diferentes relatos compõem uma história perturbadora. Para compô-la, Vargas Llosa desenvolveu uma narrativa em que o passado se entrelaça ao presente e os dramas de seus personagens são descritos de diferentes pontos de vista."


